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O direito de se sentir parte: cultura, acesso e saúde mental   

Pesquisas sobre artes e bem-estar ajudam a pensar o acesso à cultura como parte das condições de cuidado, em um país marcado por desigualdades.

Por Vittoria Lima

Em uma conversa sobre saúde mental, você pensaria em falar de cultura? Setembro Amarelo, dedicado à prevenção do suicídio, abre espaço para discutir o cuidado e as condições que influenciam nossa saúde mental. É nessa conversa que quero incluir a cultura e o direito de participar dela. 

Quando penso nessa relação, me interessam as oportunidades que a cultura pode abrir. Um jovem que passa a enxergar um futuro na música, por exemplo, também pode encontrar uma forma de se expressar e um grupo com quem aprender e pertencer. Participar, trabalhar ou até mesmo apenas conhecer um projeto cultural pode mudar a maneira como a gente se percebe e imagina a própria vida. 

Em 2019, uma revisão publicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) reuniu evidências de mais de 3 mil estudos sobre artes, saúde mental e bem-estar. Entre as contribuições identificadas em diferentes contextos estão o fortalecimento dos vínculos sociais e a redução da solidão. As pesquisas ajudam a compreender o que pode acontecer quando a arte encontra espaço na nossa vida. 

Mas essa discussão traz uma pergunta que merece a mesma atenção: quem tem condições de participar? 

O acesso também é desigual 

É inegável que a saúde mental é atravessada pelas condições de vida. Uma publicação do Ministério da Saúde de 2026, com dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, mostra que os grupos de menor renda apresentavam maior prevalência de sintomas depressivos e menor prevalência de diagnóstico médico de depressão. É nessa realidade, marcada por desigualdades em diferentes dimensões do cuidado, que também precisamos discutir o acesso à cultura. 

Participar da cultura tem suas condições. Um ingresso pode pesar no orçamento. Mesmo quando a atividade é gratuita, vale perguntar como chegar até ela, se o horário permite a presença de quem trabalha e se o espaço oferece acessibilidade. Para ampliar o acesso, precisamos olhar para o caminho inteiro até essa experiência. 

Quem se reconhece nessa cultura? 

Além de conseguir chegar a um espaço cultural, importa o que acontece quando a gente entra nele. Há lugar para as histórias e referências que trazemos? Uma pessoa pode ter acesso à programação e, ainda assim, sentir que aquele ambiente não foi pensado para ela. Ampliar a participação envolve também criar condições para que ela se reconheça ali e encontre espaço para se expressar. 

Esse olhar também precisa fazer parte de quem trabalha para viabilizar a cultura. Na captação de recursos, podemos construir parcerias que deem continuidade a iniciativas e valorizem a produção cultural de diferentes comunidades. Na comunicação, podemos dar visibilidade a essas expressões e aproximar os projetos das pessoas, considerando suas referências e os meios pelos quais a informação chega até elas.  

São escolhas que ajudam a transformar oportunidades de acesso e participação. E, quando essa participação abre espaço para a expressão, a convivência e a construção de vínculos, voltamos à relação que motivou esta conversa de cultura e saúde mental. 

E essa participação é um direito. A Declaração Universal dos Direitos Humanos reconhece, em seu artigo 27, o direito de participar da vida cultural da comunidade e de usufruir das artes. O artigo 24 trata do direito ao repouso e ao lazer. Defender oportunidades gratuitas e acessíveis é uma forma de trabalhar para que esses direitos caibam na vida de mais pessoas. 

As leis de incentivo à cultura podem contribuir para isso. Por mecanismos como o incentivo fiscal da Lei Rouanet, projetos aprovados podem captar recursos para sua realização. Esse financiamento pode viabilizar oficinas e outros programas gratuitos e ampliar a circulação de atividades culturais, criando condições para que mais pessoas participem e para que a produção artística tenha continuidade. 

Para acontecer, precisa de apoio 

Nos Polos Culturais da Gerando Falcões, crianças e jovens têm acesso a oficinas gratuitas de música, dança e teatro, com oportunidades para desenvolver habilidades e construir vínculos. A participação nesses espaços pode ampliar as perspectivas de quem está descobrindo o que gosta de fazer e os caminhos que deseja seguir. 

Para que essas oportunidades existam e tenham continuidade, há muito trabalho e investimento envolvidos. Professores, artistas e equipes precisam de remuneração, e os projetos precisam de estrutura. Garantir gratuidade para o público exige pensar em como financiar tudo isso. 

A Agência NTZ+ faz parte desse trabalho junto ao Gerando Falcões e muitos outros projetos, com captação de recursos e comunicação institucional e digital para contribuir com a viabilização e a visibilidade. 

Ao trazer a cultura pra conversa do Setembro Amarelo, acho importante colocar o acesso em pauta também. Se as artes podem contribuir para fortalecer vínculos e reduzir a solidão, as condições para participar delas precisam fazer parte da discussão sobre saúde mental. Para a NTZ, apoiar projetos culturais é uma maneira de criar oportunidades para que essas experiências aconteçam com continuidade e alcancem pessoas que hoje encontram mais barreiras. O direito de se sentir parte também passa por aí. 

Fontes e referências: 

  • OMS, 2019. Revisão sobre o papel das artes na saúde e no bem-estar, de Daisy Fancourt e Saoirse Finn. Acessar relatório. 
  • OMS, 2025. Mental health. Fatores individuais, sociais e ambientais relacionados à saúde mental. Acessar publicação. 
  • Ministério da Saúde, 2026. Vigilância de Doenças Crônicas Não Transmissíveis no Brasil: 20 anos — avanços e desafios. Acessar publicação. 
  • ONU, 1948. Declaração Universal dos Direitos Humanos. UNICEF Brasil. Acessar documento. 
  • Brasil, 1991. Lei nº 8.313 — Lei Rouanet. Acessar legislação. 

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